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Notícias / Inovação

A P&D nos Estados no Brasil

Artigo científico analisa a relevância da atividade como medida do esforço inovativo

Redação - 30/10/2015 - 12:39:31

Fonte: Banco de Imagens

por Silvia Angélica D. de Carvalho; Daniela Scarpa Beneli; André Tosi Furtado* para a Revista A Inovação

O desenvolvimento científico e tecnológico intensificado nas últimas décadas tornou os sistemas nacionais de inovação mais complexos e demostrou que a inovação possui um caráter multidimensional, não resultando apenas de um esforço sistemático mas, também, das interações entre os muitos agentes que compõem esses sistemas. A amplitude de conexões, cooperações, interrelações levam a mudanças significativas em produtos e processos, contribuindo para o avanço do conhecimento e da tecnologia e produzindo inovações.

Neste caminho, observou-se que a pesquisa e desenvolvimento (P&D), que representa um esforço sistemático e organizado para o avanço do conhecimento, é uma atividade que está ligada a um conjunto de outras atividades fundamentadas na ciência e na tecnologia. Assim, ao lado da P&D interna, atividades como desenvolvimento de software, treinamento, contratação de pesquisa e desenvolvimento externa, aquisição de máquinas e equipamentos, entre outras, ganharam importância no esforço de inovação dos agentes nos sistemas nacionais de inovação.

De acordo com o Manual Frascati (2002), as atividades de inovação tecnológica são o conjunto de diligências científicas, tecnológicas, organizacionais, financeiras e comerciais, incluindo o investimento em novos conhecimentos, que realizam ou destinam-se a levar à realização de produtos e processos tecnologicamente novos e melhores. P&D é apenas uma dessas atividades e pode ser realizada em diferentes estágios do processo de inovação, sendo usada não apenas como fonte de ideias inventivas, mas também para resolver problemas que possam surgir em qualquer etapa do processo, até a sua conclusão. Assim, diante da dimensão multifacetada da inovação, dentre as atividades inovativas, a P&D interna tem sua importância revelada por viabilizar a absorção pela empresa de novos conhecimentos importantes tanto na concepção do novo como na melhoria do velho.

Considerando a relevância da atividade de P&D interna como medida do esforço inovativo, o objetivo deste artigo é analisar a evolução desse indicador nos estados do Brasil, tendo como base as seguintes pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Pesquisa de Inovação (Pintec), Pesquisa Industrial Anual (PIA) e as Contas Regionais do Brasil.

A análise da distribuição percentual dos gastos em P&D interna nos estados brasileiros, segundo os dispêndios realizados pelas empresas inovadoras da indústria (tabela 1) chama a atenção para o estado de São Paulo que se mantém na liderança nacional com 43,3% de participação nos gastos em P&D em 2011 e para o estado do Rio de Janeiro que aparece em segundo lugar com 27,9% de participação nos gastos de P&D do país. Em terceiro lugar está o estado de Minas Gerais, que também cresce no indicador, com pico em 2008 de 11,2% dos gastos nacionais em P&D, mas apresenta queda em 2011 para 8,8%. Entretanto, os dados do período 2000-2011, demonstram que São Paulo vem perdendo participação nos gastos totais em P&D no Brasil, a queda mais acentuada foi de 2008 para 2011, quando perdeu 10 pontos percentuais. O Rio de Janeiro, na direção oposta, estava com 18,3% em 2008 e atingiu 27,9% em 2011, enquanto os demais estados mantêm as participações dos gastos em P&D no país relativamente estáveis.

Tabela 1 - Participação percentual das unidades federativas nos dispêndios realizados pela indústria nas atividades internas de pesquisa e desenvolvimento
Unidade federativa 2000 2003 2005 2008 2011
Amazonas 4,8 3,7 3,5 2,2 1,6
Pará - 0,1 0,1 0,1 0,1
Bahia 1,2 1,2 1,5 1,9 1,6
Ceará 0,7 0,3 0,5 0,7 0,9
Pernambuco 0,5 0,2 0,2 0,1 0,5
Goiás - - - 0,6 0,8
Mato Grosso - - - - 0,0
Espiríto Santo 0,4 0,8 0,4 0,6 0,3
Minas Gerais 4,4 4,8 6,6 11,2 8,8
São Paulo 57,7 61,9 59,2 54,0 43,3
Rio de Janeiro 15,5 13,9 15,4 18,3 27,9
Paraná 4,0 4,3 3,1 3,6 4,1
Santa Catarina 4,1 3,2 4,5 2,4 4,8
Rio Grande do Sul 6,7 5,6 5,1 4,4 5,3
Brasil 100,0 100 100 100 100
Fonte: IBGE (PINTEC)        

 

A intensidade de P&D, relação entre os gastos em P&D interna e a receita líquida de vendas, é um indicador internacionalmente utilizado para comparações e, muitas vezes, tomado como referência do nível tecnológico dos agentes, por mensurar os esforços para gerar novos conhecimentos que estão por trás do avanço em matéria de tecnologia (Furtado; Quadros; Domingues; 2007).

Tabela 2 - Intensidade de P&D: relação percentual entre os dispêndios realizados pelas empresas inovativas industriais nas atividades internas de pesquisa e desenvolvimento e a receita líquida de vendas – por unidades federativas
Unidade federativa 2000 2003 2005 2008 2011
Amazonas 1,01 0,67 0,53 0,41 0,34
Pará - 0,05 0,04 0,04 0,12
Bahia 0,29 0,23 0,25 0,36 0,40
Ceará 0,38 0,13 0,29 0,36 0,56
Pernambuco 0,35 0,12 0,11 0,07 0,34
Goiás - - - 0,28 0,31
Mato Grosso - - - - 0,01
Espiríto Santo 0,12 0,23 0,14 0,23 0,22
Minas Gerais 0,39 0,35 0,45 0,77 0,70
São Paulo 0,77 0,70 0,74 0,77 0,72
Rio de Janeiro 0,67 0,49 0,59 0,69 1,16
Paraná 0,50 0,47 0,36 0,44 0,52
Santa Catarina 0,57 0,32 0,46 0,29 0,61
Rio Grande do Sul 0,58 0,41 0,40 0,38 0,60
Brasil 0,64 0,53 0,57 0,62 0,79
Fonte: IBGE (PINTEC)        

 

No Brasil, a intensidade de P&D, em 2011, foi de 0,79% ante 0,62% em 2008, como apresentado na tabela 2. No período 2000-2011, o Brasil apresentou pequenos incrementos nesse indicador, mostrando uma ampliação modesta dos esforços em inovação das empresas no país. Entre os estados, destacou-se o Rio de Janeiro, cuja intensidade de P&D foi de 1,16% em 2011 ante 0,69% em 2008, apontando que realmente houve um aumento dos investimentos em P&D. A intensidade de P&D no estado de São Paulo permaneceu próxima à média brasileira com 0,72% em 2011, com uma pequena queda frente os 0,77% de 2008.

Para o Rio de Janeiro, Sobral (2012) atribui às indústrias do petróleo, petroquimíca e de construção naval a grande parcela desses investimentos. Segundo o autor, ocorreu uma atuação mais destacada de empresas transnacionais na economia fluminense. O interesse externo é um desdobramento direto do “sucesso” da atividade petrolífera, levando a uma disputa por contratos de fornecimento e compartilhamento do desenvolvimento tecnológico. Isso por meio dos estímulos de programas federais do Ministério de Minas e Energia em conjunto com a Petrobrás.

Em relação a São Paulo, a queda da participação da indústria paulista nos investimentos em P&D nacionais é intrigante. Os dados do valor da transformação industrial (VTI), nos mesmos anos de publicação da Pintec, demonstram que o estado vem perdendo participação na indústria nacional sistematicamente, sendo que, de 2008 para 2011, passou de 37,41% para 35,55% (tabela 3).

Tabela 3 – Participação percentual das unidades federativas no valor da transformação industrial nacional
  2000 2003 2005 2008 2011
Minas Gerais 9,5 9,9 10,5 11,5 12,0
Rio de Janeiro 9,5 10,5 10,6 10,6 10,7
São Paulo 44,8 40,9 40,0 37,4 35,5
Paraná 5,8 6,8 6,4 7,3 7,1
Santa Catarina 4,4 4,8 4,4 4,4 4,7
Rio Grande do Sul 8,2 7,9 6,9 6,6 6,7

Fonte: IBGE (PIA)

 

De acordo com Araújo e Cavalcante (2011), a estrutura produtiva tem grande peso nos gastos em P&D. Assim, São Paulo, por ser o estado mais industrializado do país e com grande participação dos setores mais intensivos em tecnologia (aeronáutica, automóveis e farmacêutica, entre outros), não deveria perder participação nesse indicador, dado que os demais estados possuem uma estrutura produtiva baseada em setores menos intensivos e que por definição investem menos em P&D.

Assim, considerando os dispêndios de P&D interna da indústria de São Paulo revelados pela Pintec entre os anos 2000 e 2011[1], a tabela 4 apresenta uma série de dados de intensidade de P&D. A análise setorial para o estado aponta que enquanto alguns setores ampliaram a intensidade de P&D, outros reduziram em proporções semelhantes, ou seja, a queda dos investimentos de alguns setores foi compensada pelo aumento de outros. Desta forma, a perda relativa de São Paulo frente a outros estados brasileiros justifica-se mais por uma possível estagnação de sua indústria do que por queda de investimentos em P&D.

Tabela 4 – - Intensidade de P&D no estado de São Paulo: relação percentual entre os dispêndios realizados pelas empresas inovativas industriais nas atividades internas de pesquisa e desenvolvimento e a receita líquida de vendas – por grupos de atividade econômica
Grupos de atividade econômica 2000 2003 2005 2008 2011
Produtos farmacêuticos 0,73 0,5 0,56 1,47 2,1
Automóveis, caminhonetas e utilitários, caminhões e ônibus 1,12 2,28 1,94 1,96 1,47
Peças e acessórios para veículo 0,58 0,6 0,54 0,69 1,32
Produtos químicos 0,56 0,47 0,59 0,73 0,81
Papel, embalagens e artefatos de papel 0,4 0,29 0,29 0,37 0,53
Máquinas, aparelhos e materiais elétricos - - - 1,29 0,51
Artigos de borracha e plástico 0,41 0,33 0,48 0,38 0,49
Máquinas e equipamentos 1 0,74 0,57 0,46 0,44
Produtos de metal 0,33 0,24 0,23 0,31 0,21
Produtos de minerais não metálicos 0,26 0,22 0,48 0,12 0,2
Produtos alimentícios 0,38 0,09 0,11 0,36 0,09
Fonte: IBGE (PINTEC).          

 

Brito e Pacheco (2005) já afirmavam que era preciso entender melhor a indústria paulista e que era necessário ao estado de São Paulo avançar na articulação das competências existentes, maximizando os investimentos já feitos em infraestrutura e logística, ensino, pesquisa e serviços tecnológicos. Para os autores, a base de C,T&I instalada em São Paulo pode dar uma contribuição ainda mais relevante ao desenvolvimento do estado.

O breve exercício analítico apresentado neste artigo aponta a necessidade de uma discussão mais detalhada sobre os indicadores dos estados brasileiros, que possuem muitos desafios na ampliação dos investimentos em P&D das empresas e também na redinamização de suas indústrias. É historicamente reconhecido na literatura que os investimentos privados em P&D no Brasil são baixos e diversas medidas (fundos setoriais, Lei do Bem e Lei de Inovação etc) vêm sendo implementadas em âmbito federal, desde a década de 1990, procurando tornar esse quadro mais positivo. Contudo, a raíz do problema pode ser mais profunda, como o processo de desindustrialização nacional, discutido por alguns autores, e que para Hiratuka e Sarti (2015) liga-se a uma estrutura produtiva global muito mais complexa. Neste caso, os estados mais industrializados como São Paulo seriam, logicamente, os mais afetados, uma hipótese que merece ser estudada com mais afinco, em outro artigo, pois, se for este o caso, medidas de incentivo ao aumento dos dispêndios de P&D não colherão os devidos frutos sem medidas paralelas de estruturação setorial e industrial.

Os autores são pesquisadores do Grupo de Estudos de Indicadores de Ciência,Tecnologia e Inovação do Departamento de Política Científica e Tecnológica, Instituto de Geociências, Unicamp

Referências

Araújo, B. C.; Cavalcante, L. R. Determinantes dos gastos empresariais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil: uma proposta de sistematização. In: Ipea. “Tecnologia, produção e comércio exterior”. Radar, Brasília, nº. 1, p. 09-25, 2009.

De Negri, F.; Cavalcante, L. R. Análise dos dados da Pintec 2011. Nota Técnica nº. 15. Ipea, 2013.Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/nota_tecnica/131206_notatecnicadiset15.pdf>. Acesso em: 29 set. 2015.

Fapesp. Indicadores Fapesp de Ciência, Tecnologia e Inovação. Boletim 4, maio 2014. Disponível em: <http://www.fapesp.br/indicadores/boletim4.pdf>. Acesso em: 29 set. 2015.

Furtado, A.; Quadros, R.; Domingues, S. A.“Intensidade de P&D das empresas brasileiras”.Inovação Uniemp, Campinas. v.3, nº.6, p. 26-27, 2007.

Hiratuka, C.; Sarti, F. Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil: uma contribuição ao debate. Texto para discussão 255, Instituto de Economia – Unicamp, junho de 2015.

IBGE. Contas Regionais do Brasil 2011. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/contasregionais/2011/default_ods_2002_2011.shtm>. Acesso em: 30 set. 2015.

OCDE. Manual de Frascati 2002. Publicação original em inglês e francês. Versão em português F-Iniciativas P+D+I, 2013.

Pacheco, C. A.; Cruz, C. H. B. “Instrumentos para o desenvolvimento: desafios para C&T e inovação em São Paulo”. São Paulo em Perspectiva. v. 19, nº. 1, p. 3-24, 2005.

Sobral, B. L. B. “Ciclo de investimentos e o papel das estratégias de grandes agentes econômicos: o caso da periferia da região metropolitana do Rio de Janeiro – 1995/2010”. 2012. 307f. Tese (doutorado em Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente) – Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia, Campinas, 2012.

 

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