Menu ×

Notícias / Opinião

Choque do escracho

Strip-tease do baixo nível dos políticos é bom para acordar o país e apressar as mudanças

Antonio Machado - 11/09/2017 - 07:43:49

Crédito: Banco de Imagens

Se dúvidas havia sobre o baixíssimo nível dos governantes e de sua rede de apoio político e empresarial nos últimos 15 anos, o strip-tease seriado dos podres de personagens de fina estampa do cenário nacional acabou por desfazê-las. E foi bom que acontecesse. 

O país precisava conhecer, sem censura, a política praticada por lideranças de partidos - inclusive, ou sobretudo, dos que se dizem defensores dos oprimidos - que exaltam a virtude da democracia e a sabotam no escondidinho de suas relações com velhacos de uma ordem econômica que se finge de liberal e não vive sem favores oficiais. 

É o trauma da verdade, não os discursos moralistas, as correntes de indignados nas redes sociais e muito menos a ação justiceira de investigadores, que poderá – assim, no condicional, pois no campo da ética e da moral nada é seguro – vir a passar a limpo o que faz o Brasil ser considerado, historicamente, um dos mais corruptos do mundo, com o “jeitinho” entranhado em nosso jeito de ser. 

O áudio da conversa etílica de Joesley Batista - dono com o irmão Wesley do grupo empresarial que mais cresceu na era petista graças a crédito oficial barato, aportes de capital e favores sortidos - com Ricardo Saud, lobista de seus negócios, teve o mérito de expor a baixaria dos que enriquecem ensaboando a mão de quem tem a chave dos cofres públicos e a caneta para aprovar leis por encomenda. 

O depoimento cerebral ao juiz Sérgio Moro do ex-ministro Antonio Palocci, o mais inteligente e de confiança no entorno de quem disse não ter “uma viva alma mais honesta”, mostrou um Lula sem cerimônia para cavar propinas para si e o PT. 

Palocci falou sem a garantia de uma delação premiada, embora seja o que pretenda, lançando com sua confissão a pá de cal sobre os devaneios eleitorais de Lula e a imagem de que nada sabia de Dilma Rousseff. E teve muito mais. 

O simbolismo da foto das “cinco escolas, dez creches, 50 viaturas policiais e cinco UBS totalmente equipadas”, como um leitor avaliou o uso social dos R$ 51 milhões encontrados pela Polícia Federal num apartamento em Salvador de Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Lula, de Temer e cardeal do PMDB da Câmara, foi como tiro de misericórdia na governança de um sistema escrachado. 

O rio que está passando 

Daqui para frente, no que cabe à Lava Jato e seus filhotes, não há o que esperar a não ser agilidade da Justiça, mais profissionalismo do Ministério Público Federal depois da atrapalhada gestão do chefe da PGR, Rodrigo Janot, e menos soberba dos políticos denunciados. 

Pode durar, mas esse é um rio que está passando, enquanto se forma o novo tempo. O próximo resultado decisivo virá com as eleições em outubro de 2018. 

Elegendo-se um governo minimamente competente, com maioria reformista no Congresso, que enderece logo no alvorecer de 2019 a solução para o estoque de dívida e encabreste a burocracia, o Brasil deslanchará como a grande oportunidade global a desbravar. 

Quem fizer tal aposta desde já, e muitos começam a fazê-la, como o desempenho da bolsa e a valorização do real estão a narrar, sairá no lucro, até porque outra onda populista não terá êxito tão cedo. 

O viés é de recuperação 

Apesar de seguir sem solução o grave problema da incompatibilidade da estrutura dos gastos públicos no país com a capacidade de solvê-los pela dinâmica da economia, a retomada do crescimento pelo ciclo da conjuntura está dada e tenderá a ganhar mais consistência. 

Como diz o economista Fernando Montero, primeiro a enxergar antes mesmo do Banco Central (em agosto de 2016) a forte desinflação que se insinuava adiante, “um cenário com menos inflação, menos juros e mais PIB, além de comida barata, é mais virtuoso”. E também está na conta a retração do desemprego, aliviando as percepções sociais. 

O quadro fiscal continuará se agravando, com o déficit primário do orçamento federal (que exclui o pagamento de juros) se estendendo a perder de vista, assim como a insolvência dos governos regionais. O que se desconsidera nestas projeções é a alta chance de uma ruptura desse processo no limiar de 2019. Dependerá de quem for eleito. 

O Estado virou bagunça 

O que se impõe como prioridade irrestrita para o ajuste eficaz das contas fiscais, incluída a reforma da previdência, é nada mais que a expressão contábil e financeira de outra urgência: a retomada do controle do Estado nacional das mãos de corporações e a revisão da autonomia orçamentária dos poderes. Isso virou bagunça. 

A autonomia para julgar do Judiciário não combina com a de impor o orçamento próprio e benefícios de carreira, valendo o mesmo para o Legislativo. O orçamento público é único e cabe ao Executivo compor as demandas às prioridades de ofício, com o Congresso como árbitro e fiscal. Essa é a dinâmica da democracia, não cabendo distorções, como órgão cobrador acumular função normativa e assim por diante. 

Nem tudo a fazer trata de ajuste fiscal, e isso é que vai definir o perfil adequado dos novos eleitos nos planos federal e estadual. 

As cartas estão lançadas 

As cartas do futuro imediato estão lançadas, mas o baralho desse jogo terá de ser novo se a Justiça se mostrar à altura do que lhe impõe a sociedade. Denunciada já está quase toda a elite política do país - dos caciques do PMDB no Senado aos do PMDB da Câmara, do presidente do PSDB à nata do PT. E mais está por vir. 

Cada partido estrebucha, mas está como produto com data vencida e sabe que terá de se renovar. Isso está difícil, já que os partidos relutam em desvencilhar-se do perfil insosso e provinciano dos que estão sendo retirados das prateleiras. Ficar de fora das listas de corruptos não credencia ninguém. É mais o que o país almeja. 

E não só para presidente. Também para a Câmara e Senado, além dos governadores e deputados ao menos dos principais estados - líderes capazes de atrair gente entusiasmada e bem formada para oxigenar a governança do abatido setor público. Esse é o maior desafio, pois, apesar da folha corrida ruim, somente o Estado tem as condições de ordenar o imenso trabalho a fazer para recuperar o tempo perdido.

Faça seu Download

Nesta área você encontra o nosso diretório de parceiros de negócios com relatórios, pesquisas, vídeos e estudos de caso para que você possa alcançá-los para obter informações adicionais sobre os produtos e serviços que ajude a você na tomada de decisão.

Para receber o download, por favor, preencha apenas na primeira vez os seus dados e qualificação e receba imediatamente o material para leitura.

Listar todos os arquivos