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Notícias / Opinião

Economia saiu do buraco

Mas só com poupança acima de 20% do PIB haverá progresso. Hoje, é menos de 15%

Antonio Machado - 5/03/2018 - 10:30:26

Crédito: Banco de Imagens

O crescimento da economia de 1% em 2017 é ralo, olhando-se apenas o algarismo, mas se trata de um resultado significativo, comparado ao Produto Interno Bruto (PIB) da fase final dos governos petistas – estagnação em 2014 (+0,5%) e duas quedas de 3,5% em 2015 e 2016. 

O desemprego ainda elevado, de 12,2% da população ativa no fim de janeiro, e a recuperação em marcha-lenta da renda per capita (0,2% em 2017, depois de afundar 8,7% no biênio 2015-16) são sequelas da condução ruinosa, pois voluntariosa, da economia a partir de 2008. 

Michel Temer passa ao largo disso, exceto por ele ter sido vice de Dilma Rousseff. Mas poderia ter feito mais depois do impeachment. O seu passo em falso foi estrear na presidência liberando aumentos de salários do funcionalismo, que Dilma vinha engavetando. Isso quando o déficit orçamentário já inflamava as expectativas do tal mercado. 

Temer alegou cumprir compromissos, para em seguida fazer aprovar a PEC do Teto, atrelando o gasto público à inflação pelos próximos 20 anos e invertendo a ordem natural das reformas de cunho fiscal, que indicava começar por onde o déficit mais preocupa - a previdência. 

Presidente mal-amado, bem-sucedido com algumas reformas relevantes para reconstruir as bases do desenvolvimento, e incapaz de aprovar a principal delas, da previdência, Temer pode afrouxar a gravata. Ele vai enfatizar que tirou a economia da cratera cavada por Dilma & Cia, mérito também reivindicado pelo ministro Henrique Meirelles. 

O PIB deve avançar 3% este ano. Não é uma maravilha. Na Argentina, por exemplo, a economia cresceu 2,8% no ano passado, depois de cair 2,3% em 2016. Enquanto faltar consciência crítica sobre as razões de nossas mazelas, o risco de processos “anda-para”, o tal “voo da galinha” que nos acompanha desde sempre, é grande já para 2019. 

A ameaça é real. Sob influência do pensamento econômico dominante no país à direita e à esquerda, os presidenciáveis repetem chavões tornados obsoletos pela tecnologia e pela gestão da macroeconomia depois da crise de 2008 no mundo avançado. A falta de visão sobre as inovações na fronteira da macroeconomia denuncia o que nos leva a repetir políticas de todos os matizes que provocam mal-estar na sociedade devido à suspeita de novos-velhos fracassos. 

Os cultores do atraso 

Uns enfatizam a ordem fiscal, o mantra dos economistas do rolê da dívida; outros, o gasto público como aditivo do crescimento; nenhum valoriza a importância da taxa de poupança, que fechou 2017 abaixo de 15% do PIB, como a primeira estaca do investimento, rebaixado a esquálidos 15,5% do PIB. A relação é esta: expansões do PIB de cerca de 3% ao ano exigem investimentos da ordem de 23% do PIB. 

Só em infraestrutura, que vai da geração de energia (escassa para um triênio seguido de expansão econômica de 3% anual) à oferta de saneamento (cuja insuficiência está na raiz da volta das doenças do subdesenvolvimento), o país precisa investir cerca de 5% do PIB, R$ 330 bilhões anuais, ao longo de uma década, nas contas do BNDES. 

Em 2017, foram investidos menos de 2% do PIB em infraestrutura, o menor nível de todos os tempos. Em dinheiro, a necessidade é muito maior que os magros R$ 105 bilhões orçados para 2018. Que candidato já falou sobre isso? Ou os presidentes desde, sei lá, o Sarney? 

Exemplos para inspirar 

A questão desprezada é que não há exemplo de progresso sustentado no mundo (Alemanha e Japão no pós-guerra; Coreia do Sul, Singapura, Taiwan, nos anos 1990; China, pós 1978; Índia, Malásia, Vietnã, nos últimos dez anos) sem um longo período de taxa de poupança elevada, acima de 25% do PIB. Tudo mais foi detalhe – como dirigismo estatal (China), primazia do mercado (Taiwan), força na educação (Coréia). 

Além de poupança (alavancada, às vezes, por repressão financeira), outros traços comuns a tais processos foram clareza sobre onde e em que investir; lista de projetos com elevado benefício-custo; alta flexibilidade das prioridades (estradas e energia ontem, mobilidade urbana e inteligência artificial hoje); burocracia e setor privado alinhados, sem conflitos ideológicos e interesses corporativistas; projetos aceitos como da nação e não de partidos nem de lobbies. 

Alguém viu tais valores nos PND, PAC, Avança Brasil, as marcas de fantasia de nossos planos de desenvolvimento fracassados? 

Pensando fora da caixa 

Crescimento econômico alto (3%?), duradouro (uma década ao menos), com partilha dos frutos sob a forma de educação, saúde e geração de empregos com qualidade é o corolário de um bom programa de governo. 

Nunca tivemos algo assim, só assistencialismo barato e a retórica ora de que o estatismo pode tudo, ora de que o Estado é maldito, com a sociedade se inclinando entre tais juízos. Quem hoje faz tal exegese, encontrando ouvidos atentos na Câmara, e vislumbra ideias fora da caixa é o deputado Rodrigo Maia. O empresário Josué Alencar tem se dedicado a tal reflexão. 

À retaguarda há quem tenha juntado o melhor dos modelos dos EUA, China e Europa para tirar o Brasil da indigência intelectual. É isso: pensar adiante, sem medo do futuro. 

30 anos de enrolação 

Depois de quase um quarto de século, desde a reforma monetária, e ainda, entra ano, sai ano, falamos com olhos esbugalhados de ameaça da inflação. Ou de conflitos institucionais depois de três décadas de Constituição. Ou somos apalermados ou tolerantes como bovinos. 

Não se eliminou a indexação, que funciona como reprodução de taxas passadas de inflação. Nem a Selic, que agracia a minoria com rendas protegidas de quaisquer riscos. E lá se foi quase um PIB inteiro de juros pagos sobre uma dívida que só engorda. 

As soluções para tais distorções atacam os efeitos, não as causas, tipo PEC do Teto, que amarra o gasto fiscal e deixa solto o que o infla, tais como abusos salariais de certas corporações. E processos que ignoram os ganhos de tempo e de custos com o uso intensivo de novas tecnologias. 

Reflita sobre tais “omissões”, confronte-as com o que falam os que se dizem candidatos e tire sua conclusão. Depois não adianta mais.

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