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Notícias / Opinião

O trem apitou

Locomotiva Brasil se prepara para partir, apesar das pedradas ao maquinista escolhido pela maioria

Antonio Machado - 24/10/2018 - 14:49:47

Crédito: Banco de Imagens
Com pinta de Maria Fumaça, não do trem veloz e confortável típico de propaganda eleitoral, a locomotiva Brasil se prepara para sair da estação, a despeito das pedras jogadas pelos insatisfeitos com o maquinista escolhido pela esmagadora maioria dos passageiros.
 
À véspera do embarque, não há sinais de que possam mudar seu voto, ainda que não esteja muito claro para onde levará essa viagem. Mas isso por ora não está em causa. Quase tudo foi provado desde o último governo militar, 33 anos atrás, e o fato é que muito pouco mudou para valer na vida da multidão de invisíveis que decidem as eleições.
 
Eles são os brasileiros com renda abaixo de cinco salários mínimos e pelos quais outros sempre falaram, acenando com ganhos efêmeros, não com as transformações duradouras que julgam merecer. Tal é a revolta cujos sinais se faziam presentes desde fim de 2012 e ninguém viu ou, se viu, não entendeu ou deu de ombros, políticos, em especial.
 
Quase toda semana, antes das grandes manifestações de junho de 2013, havia quebra-pau em estações de trem e metrô em São Paulo, Rio, indício de insatisfação latente com a indiferença dos governantes. 
 
Essa população esquecida e sobrevivente como personagem de auto da compadecida foi outra vez ignorada nas explicações dos “entendidos” sobre a varrição geral dos chefes e chefetes partidários. 
 
A maioria enxergou na larga dianteira de Jair Bolsonaro uma aversão ao petismo, acentuada com a prisão de Lula e os casos de corrupção, com pitadas fascista, racista, homofóbica - “ignorância”, publicou um luminar de jornal, doído por ver a massa difusa negar suas previsões.
 
Não precisa de sociologia, antropologia e outros “ias” para sacar o que está acontecendo. Os brasileiros com poder de eleger e cassar os governantes, mais que os letrados com alguma ideia sobre a acepção de direita e esquerda, partilham o sofrimento que os que dizem defendê-los por procuração, em regra, só conhecem na teoria e à distância.
 
Eles vivem em 77% das moradias permanentes no país, chegando a 86% no Nordeste, normalmente em áreas precárias, violentas, e começam a perceber que nunca tiveram as melhores oportunidades de educação nem o respeito de governos, espremem-se em transportes ruins, receiam a segurança de ir e vir etc.
 
Esse voto continua de cabresto em rincões, mas mesmo lá a retórica boca-dura de Bolsonaro já se faz ouvida.
 
O voto estoura tímpano
 
O voto dessa gente invisível estourou os tímpanos dos bem formados e de lideranças, sobretudo do PT, apanhadas de surpresa, revelando quão distante Lula e seus companheiros estavam do Brasil real.
 
Mas também estão muitos dos que surfaram a onda Bolsonaro elegendo-se pelo país. Julgam-se eleitos pelo antipetismo, quando, provavelmente, este tenha sido um evento restrito à parte menor do eleitorado.
 
Ninguém recebe o voto de 46% do eleitorado, a votação de Bolsonaro em primeiro turno, se não for o escolhido pelos mais pobres, os menos instruídos, os que se declaram não brancos. Com renda de 10 salários mínimos ou mais, conforme a estratificação do IBGE, há cerca de 5%, o que não elege, na proporção, nem vereador na cidade de São Paulo.
 
Essa é a responsabilidade de Bolsonaro – conciliar a pesada agenda de reformas fiscais com a atenção prioritária ao perfil social que o apoia. E não por razões políticas, o que os bem pensantes que batem ponto na imprensa desqualificariam como “populismo”, mas porque essa é a prioridade moral que se impõe: tirar os invisíveis do anonimato.
 
Premissas da agenda social
 
Governo voltado prioritariamente às demandas sociais não é sinônimo de farra fiscal, ao contrário. É o que não cede a pressões descabidas de corporações poderosas, como o Judiciário, nem a grupos viciados em subsídios, incentivos fiscais e proteção de mercado.
 
É com tais premissas que busca influenciar os aliados no Congresso, o fórum supremo na partilha de recursos públicos. Tome-se a questão da privatização de estatais. O governo atento ao social privatiza não para abater dívida pública, mas sobretudo para deixar de gastar com o que dispensa a ação estatal, ter maior eficiência, limar privilégios nessa porção do setor público, promover a produtividade da economia.
 
Dívida é estoque, enquanto o que a engorda é fluxo, ou seja, déficit orçamentário antes dos juros, como ocorre há cinco anos. O superávit sinaliza caixa para gastar com educação, saúde, saneamento, depois de esgotadas melhoras de gestão. Faz-se cortando desperdícios, regalias de burocratas etc. Não é bem isso o que elabora o tal mercado.
 
Atenção ao Brasil profundo
 
O que será depende de o eleitor ratificar em segundo turno o que já antecipou e da visão do eleito quanto ao Brasil real que o aguarda. O pragmatismo com os temas de comportamento, além de tolerância com os adversários de boa fé, tornará mais fácil sua vida e a da sociedade.
 
Também ajuda livrar-se o quanto antes de rótulos arcaicos, como o do liberalismo, e de preconceitos estranhos à maioria dos eleitores. Tal como escreveu Fernando Gabeira, antenado com o Brasil profundo, “na verdade, o que consideram uma aberração é resultado do voto popular”.
 
Diria mais: voto não levado por fake news, um álibi para justificar a derrota dos que não viram o movimento de massas exigindo renovação.

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